Estava, sexta-feira, em um mini-engarrafamento que sempre se forma diante do primeiro semáforo no caminho entre trabalho e casa, portanto com aquele ótimo humor de quem já iniciou o final de semana e escuto, muito claramente, pois a dupla estava a pouco mais de um metro de mim:
- E então, abandonou a chapinha?
- Sim, decidi assumir os cachos, como a Taís Araújo!
- Ficou ótimo!
Normalmente não seria o caso de eu dar atenção, mas como eram duas vozes masculinas... olhei. Sim, eram duas bibas. Uma ruivinha, branca que só, de cabelo bem curtinho, até me lembou o Elton John, e a outra, a Taís Araújo cover, um homem que, se eu fosse mulher, diria: - Que desperdício!!! Um mulato alto, elegante, com um sorriso de comercial de pasta de dente. Não de Even, aí seria exagero, mas um chocolate ao leite de respeito. Com uns cachos realmente lindos.
Foi quando eu pensei na cor dele, mulato claro, moreno escuro, sei lá, mais moreno que o Marcos Palmeira... ué, de onde eu tirei essa comparação? De minutos atrás, quando eu, assim como todos os meus milhares de colegas no Brasil inteiro, recebi a informação de que a nossa empresa vai fazer uma pesquisa para saber de que cor somos. Corrijo. De que cor nos auto-declaramos. Pode?
Não satisfeitos, os gênios que bolaram este maravilhoso questionário, ainda dão exemplos, para quem não é capaz de se encaixar sozinho no arco-íris, de personalidades que se enquadram em cada padrão: Airton Senna e Zilda Arns são considerados brancos. Pelé e Zezé Motta, adivinhem? Amarela, a Fernanda Takai. Aí vem os pardos. Ah, os pardos... Machado de Assis e Marcos Palmeira.
Marcos Palmeira é mulato? Particularmente nunca achei ele muito mais moreno que o Senna. Mais bem passadinho, mas nada assim, tão gritante. Como uma estagiária que outro dia, no arquivo, falava para outra que era negra. Quase caí da cadeira. Fulaninha, negra? Ela até tem o cabelo bem escuro, a pele mais bronzeada, mas é menos mulata que a Camila Pitanga. E aí? É filha de negros? Tá. Pode se dizer negro até quem não parece. Mas e daí? Que diferença faz se é ou não negro? Se é ou não amarelo? E para a empresa? Menos diferença ainda.
Costumo dizer que se eu fosse um cachorro, seria um daqueles bem guaipecas, que não tem como definir a raça, tamanha a mistura das minhas origens. O Brasil todo é assim, uma grande matilha de SRD (sem raça definida). Todo mundo é um pouco de tudo. E todos convivem sem estresse, tom sobre tom. Então porque criar preconceito onde ele não existe?
Talvez minha negritude não se manifeste na pele, mas na alma. Também quero liberar meus cachos, como a Taís Araújo! Mas isso, só em sonho! Como essa vida é injusta.
Nada tão especial que necessite publicidade (nem tão sem graça que não interesse a ninguém).
domingo, 25 de julho de 2010
domingo, 18 de julho de 2010
Quem planta sacanagem colhe solidão
Meu vizinho tem um excelente equipamento de som.
Meu vizinho vai ser uma pessoa muito, muito solitária.
Passa da uma hora da manhã de domingo. Após enfrentar um sábado chuvoso e sem graça, decido ir para cama cedo, desfrutar da companhia do José - o Saramago - outro que também morreu e haverá o leitor de pensar que tenho alguma predileção por cadáveres, mas não, havia efetuado a compra deste livro antigo pela internet, antes que a morte, com suas intermitências, o resolvesse visitar - e eis que inicia uma sessão musical na casa de trás.
Por alguma confluência de engenharia, que traz o som dele diretamente para cá, ou porque o sujeito realmente ouve música muito alto, tudo o que ele toca lá escuta-se nitidamente no meu quarto. Sem distorção alguma, o que me leva a crer que ele fez um alto investimento em amplificadores, alto-falantes, caixas acústicas e coisa e tal.
Normalmente ele escuta sempre as mesmas músicas, alguns temas batidíssimos de filmes antigos, New York, New York, algumas coisas óbvias de Michael Jackson... e, por alguma razão que a própria razão deconhece, finaliza sua seleção escutando "eu sou Elimar, de todos os santos"... Bem, eu nunca disse que ele tinha bom gosto, mas nada que agredisse tanto. E quando estava começando a atingir aquele ponto de querer rogar alguma praga, vinha a musiquinha do Elimar, alertando para a inutilidade dessa tentativa e - viva! - para o final do momento musical.
Pois nunca antes eu quis tanto escutar Elimar Santos!
Obviamente esse senhor teve filhos e é a festinha de aniversário de um deles que está acontecendo. Eles escutaram todos os CDs do Aviões do Forró! Desde os mais idiotas até os mais ridículos. Dos repugnantes aos escrotos. E eu e o Zé aqui, praticando a serenidade. Pensando que, afinal, são jovens descerebrados de uma região onde o forró impera. E que, afinal, não há nestes tempos oferta de música de qualidade como havia nos anos 80... Mas, convenhamos, sempre tem alguma coisa. Particularmente não gosto de Pato Fu, mas estaria nas nuvens se fosse a Fernanda Takai assoprando nos meus ouvidos até agora. Mas Aviões do Forró, argh! E como eu sei que era Aviões do Forró? Porque os cantores gritam a cada cinco minutos o nome da banda!! Ainda mais isso!
Aí deu uma pausa, cantaram parabéns (provavelmente com as palmas das mãos desencontradas) e retomaram com uma música cuja letra magnífica é o título desta postagem: quem planta sacanagem colhe solidão. Não resisti, abandonei o Saramago e fui buscar o micro. Pesquisei e descobri que é do Latino. Latino!! Então escutaram muita coisa linda dele! Letras profundas e tocantes como "selinho na boca". O volume, nem preciso dizer.
Agora estão escutando alguma espécie de sei lá o quê, alguma música feita por presidiários. Só o que se consegue compreender é quando o cara fala "sai do chão, sai do chão", o que eu espero que não aconteça! Já pensou essa gurizada debilóide voando por aí! Elimar de Todos os Santos que não permita que isso aconteça!
Por aqui é comum que os filhos de famílias abastadas façam cursos de inglês fora do país, preferencialmente em lugares onde existem guetos de brasileiros, para facilitar as coisas. Rezo para que o filho do meu vizinho decida fazer o prezinho na Austrália. E leve consigo seus irmãos todos, para que festas embaladas por essas surpreendentes melodias sejam apenas uma lembrança distante, como aqueles sonhos ruins.
E a solidão do meu vizinho? Como diria um filósofo latino, plantou sacanagem...
Meu vizinho vai ser uma pessoa muito, muito solitária.
Passa da uma hora da manhã de domingo. Após enfrentar um sábado chuvoso e sem graça, decido ir para cama cedo, desfrutar da companhia do José - o Saramago - outro que também morreu e haverá o leitor de pensar que tenho alguma predileção por cadáveres, mas não, havia efetuado a compra deste livro antigo pela internet, antes que a morte, com suas intermitências, o resolvesse visitar - e eis que inicia uma sessão musical na casa de trás.
Por alguma confluência de engenharia, que traz o som dele diretamente para cá, ou porque o sujeito realmente ouve música muito alto, tudo o que ele toca lá escuta-se nitidamente no meu quarto. Sem distorção alguma, o que me leva a crer que ele fez um alto investimento em amplificadores, alto-falantes, caixas acústicas e coisa e tal.
Normalmente ele escuta sempre as mesmas músicas, alguns temas batidíssimos de filmes antigos, New York, New York, algumas coisas óbvias de Michael Jackson... e, por alguma razão que a própria razão deconhece, finaliza sua seleção escutando "eu sou Elimar, de todos os santos"... Bem, eu nunca disse que ele tinha bom gosto, mas nada que agredisse tanto. E quando estava começando a atingir aquele ponto de querer rogar alguma praga, vinha a musiquinha do Elimar, alertando para a inutilidade dessa tentativa e - viva! - para o final do momento musical.
Pois nunca antes eu quis tanto escutar Elimar Santos!
Obviamente esse senhor teve filhos e é a festinha de aniversário de um deles que está acontecendo. Eles escutaram todos os CDs do Aviões do Forró! Desde os mais idiotas até os mais ridículos. Dos repugnantes aos escrotos. E eu e o Zé aqui, praticando a serenidade. Pensando que, afinal, são jovens descerebrados de uma região onde o forró impera. E que, afinal, não há nestes tempos oferta de música de qualidade como havia nos anos 80... Mas, convenhamos, sempre tem alguma coisa. Particularmente não gosto de Pato Fu, mas estaria nas nuvens se fosse a Fernanda Takai assoprando nos meus ouvidos até agora. Mas Aviões do Forró, argh! E como eu sei que era Aviões do Forró? Porque os cantores gritam a cada cinco minutos o nome da banda!! Ainda mais isso!
Aí deu uma pausa, cantaram parabéns (provavelmente com as palmas das mãos desencontradas) e retomaram com uma música cuja letra magnífica é o título desta postagem: quem planta sacanagem colhe solidão. Não resisti, abandonei o Saramago e fui buscar o micro. Pesquisei e descobri que é do Latino. Latino!! Então escutaram muita coisa linda dele! Letras profundas e tocantes como "selinho na boca". O volume, nem preciso dizer.
Agora estão escutando alguma espécie de sei lá o quê, alguma música feita por presidiários. Só o que se consegue compreender é quando o cara fala "sai do chão, sai do chão", o que eu espero que não aconteça! Já pensou essa gurizada debilóide voando por aí! Elimar de Todos os Santos que não permita que isso aconteça!
Por aqui é comum que os filhos de famílias abastadas façam cursos de inglês fora do país, preferencialmente em lugares onde existem guetos de brasileiros, para facilitar as coisas. Rezo para que o filho do meu vizinho decida fazer o prezinho na Austrália. E leve consigo seus irmãos todos, para que festas embaladas por essas surpreendentes melodias sejam apenas uma lembrança distante, como aqueles sonhos ruins.
E a solidão do meu vizinho? Como diria um filósofo latino, plantou sacanagem...
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Não há mais tempo
Stall se foi. Não deu tempo de visitá-lo. E agora não há mais nada a fazer.
Recebo inúmeros e-mails falando que passado e futuro não existem, que só temos o presente. Que devemos viver intensamente este momento, que só o agora está ao nosso alcance... variações sobre o mesmo tema. Algumas mais chatas que outras. E então me deparo com a morte. Catapuf, morreu. E agora? Se foi o boi com a corda. No caso, o cavalo, e sem corda... explico com uma pequena historinha.
Era uma vez um cavalo tobiano, branco com manchas marrons. Era bonito, forte e altivo, a tal ponto que Denise, ao vê-lo pela primeira vez, ficou achando que destoava daquela carroça. Eventualmente ela o via, no caminho do trabalho. O tempo foi passando, ela viu o animal emagrecendo muito, sendo maltratado pelo dono e decidiu queixar-se às autoridades. Não obteve eco em nenhum lugar. Aparentemente não havia proteção legal para o bicho. Ela procurou a Associação de Proteção aos Animais que entrou em contato com o dono, um tal de Amendoim, homem bruto que fez ouvidos moucos aos acordos com a APA para que Denise medicasse Tornado - seu nome, na época. E seguiu com os maus tratos, a ponto de um dia colocar os arreios sobre aquele corpo que era só couro e osso com uma imensa ferida no lombo que sangrava e estava visivelmente infeccionada.
Mulherzinha que é, Denise chegou ao trabalho aos prantos, incapaz estava de resolver a situação, já que o tal brutamontes se recusava até mesmo a vender o cavalo agonizante. Nesse dia seu colega Rodrigo assumiu as rédeas da situação e conseguiu salvar o bicho, encontrando inclusive uma baia onde ele poderia ficar para receber cuidados veterinários, comida de qualidade, repouso e carinho.
Durante quatro meses ambos cuidaram de Stallone, que foi rebatizado por Helton, antes de saber que ele era castrado e que, portanto, não lhe cabia tão bem a menção a um garanhão italiano. Stall se recuperou da ferida, o risco de infecção generalizada foi afastado com muitos antibióticos, ele tomou soro, arrumou os cascos, foi depilado, todos os seus carrapatos foram removidos, sua crina foi cortada, fez tratamento dentário. Durante este período de recuperação tomava banhos diários, era escovado, tinha direito a cinco refeições por dia e água fresca.
Todos os sábados, e pelo menos um ou dois dias na semana, Denise e Rodrigo levavam cenouras e o faziam exercitar-se.
Stall ficou bom. Mas jamais poderia voltar a ser montado ou puxar carroça. Sua coluna estava condenada. Então era hora de encontrar um lugar onde ele pudesse passar o resto da vida descansando. A fazenda do sogro de Sânia, em Areia, foi um lugar mais do que ideal para ele. Muito pasto, um açude lindo, um clima maravilhoso e nada mais para fazer do que viver livre e solto.
Pois foi assim que ele terminou seus dias. Ontem não acordou. O vaqueiro do "Seu" Juraci encontrou Stallone deitado lá no seu lugar favorito. De onde não levantaria mais. Não se sabe bem, ainda, o que aconteceu. Mas acabou. Ele se foi. Antes que Denise e Rodrigo o tivessem visitado uma última vez, como estava planejado.
Nâo é a coisa mais triste do mundo. Morreu um cavalo velho. Denise chora não por ele, que enfim teve uma morte digna. Passou os últimos oito meses em liberdade, sem maus tratos, sem sofrimento. Chora por ela mesma. Pelo que não deu tempo de fazer. Chora porque não há mais tempo.
Acabou a historinha.
Estranhamente os e-mails chatos falando em não deixar nada para amanhã passam a fazer sentido. Nada é mais definitivo do que a morte. E também nada é tão claro quanto ela para demonstrar que muito pouco está sob nosso controle. Não se anda para trás. Lamentavalmente não dá para voltar o tempo.
Para Stall a vida acabou. Para nós todos, a cada dia, acaba um pouco o tempo de viver.
Recebo inúmeros e-mails falando que passado e futuro não existem, que só temos o presente. Que devemos viver intensamente este momento, que só o agora está ao nosso alcance... variações sobre o mesmo tema. Algumas mais chatas que outras. E então me deparo com a morte. Catapuf, morreu. E agora? Se foi o boi com a corda. No caso, o cavalo, e sem corda... explico com uma pequena historinha.
Era uma vez um cavalo tobiano, branco com manchas marrons. Era bonito, forte e altivo, a tal ponto que Denise, ao vê-lo pela primeira vez, ficou achando que destoava daquela carroça. Eventualmente ela o via, no caminho do trabalho. O tempo foi passando, ela viu o animal emagrecendo muito, sendo maltratado pelo dono e decidiu queixar-se às autoridades. Não obteve eco em nenhum lugar. Aparentemente não havia proteção legal para o bicho. Ela procurou a Associação de Proteção aos Animais que entrou em contato com o dono, um tal de Amendoim, homem bruto que fez ouvidos moucos aos acordos com a APA para que Denise medicasse Tornado - seu nome, na época. E seguiu com os maus tratos, a ponto de um dia colocar os arreios sobre aquele corpo que era só couro e osso com uma imensa ferida no lombo que sangrava e estava visivelmente infeccionada.
Mulherzinha que é, Denise chegou ao trabalho aos prantos, incapaz estava de resolver a situação, já que o tal brutamontes se recusava até mesmo a vender o cavalo agonizante. Nesse dia seu colega Rodrigo assumiu as rédeas da situação e conseguiu salvar o bicho, encontrando inclusive uma baia onde ele poderia ficar para receber cuidados veterinários, comida de qualidade, repouso e carinho.
Durante quatro meses ambos cuidaram de Stallone, que foi rebatizado por Helton, antes de saber que ele era castrado e que, portanto, não lhe cabia tão bem a menção a um garanhão italiano. Stall se recuperou da ferida, o risco de infecção generalizada foi afastado com muitos antibióticos, ele tomou soro, arrumou os cascos, foi depilado, todos os seus carrapatos foram removidos, sua crina foi cortada, fez tratamento dentário. Durante este período de recuperação tomava banhos diários, era escovado, tinha direito a cinco refeições por dia e água fresca.
Todos os sábados, e pelo menos um ou dois dias na semana, Denise e Rodrigo levavam cenouras e o faziam exercitar-se.
Stall ficou bom. Mas jamais poderia voltar a ser montado ou puxar carroça. Sua coluna estava condenada. Então era hora de encontrar um lugar onde ele pudesse passar o resto da vida descansando. A fazenda do sogro de Sânia, em Areia, foi um lugar mais do que ideal para ele. Muito pasto, um açude lindo, um clima maravilhoso e nada mais para fazer do que viver livre e solto.
Pois foi assim que ele terminou seus dias. Ontem não acordou. O vaqueiro do "Seu" Juraci encontrou Stallone deitado lá no seu lugar favorito. De onde não levantaria mais. Não se sabe bem, ainda, o que aconteceu. Mas acabou. Ele se foi. Antes que Denise e Rodrigo o tivessem visitado uma última vez, como estava planejado.
Nâo é a coisa mais triste do mundo. Morreu um cavalo velho. Denise chora não por ele, que enfim teve uma morte digna. Passou os últimos oito meses em liberdade, sem maus tratos, sem sofrimento. Chora por ela mesma. Pelo que não deu tempo de fazer. Chora porque não há mais tempo.
Acabou a historinha.
Estranhamente os e-mails chatos falando em não deixar nada para amanhã passam a fazer sentido. Nada é mais definitivo do que a morte. E também nada é tão claro quanto ela para demonstrar que muito pouco está sob nosso controle. Não se anda para trás. Lamentavalmente não dá para voltar o tempo.
Para Stall a vida acabou. Para nós todos, a cada dia, acaba um pouco o tempo de viver.
sábado, 26 de junho de 2010
De molho
Cama. E só. Durante os últimos dez longos dias este tem sido meu destino. Dez enlouquecedores dias. Que parecem se arrastar. Uma virose (o que mais?) me tirou de circulação. Mais do que isso. Acabou comigo. Tudo começou com uma febre alta na quinta de noite (a outra quinta). Na sexta estava mole, a febre continuava, tomei Tylenol, Novalgina... nada de a febre ceder. Fiquei de molho durante o final de semana todo. Na segunda trabalhei só por teimosia e decidi ir a um médico. Mas de que especialidade, se a não ser pela febre não havia outros sintomas? Sim, doía cada fio de cabelo, mas só quando eu passava a mão e a sensação de atropelamento era em virtude da febre... bem, me doía um pouco atrás da orelha. Assim escolhi um otorrino, que podia me atender ainda naquele dia, o que era essencial.
Fui atendida rapidamente, ou melhor, colocada para dentro do consultório rapidamente, pois o médico estava ao celular com um amigo com quem colocou as fofocas em dia enquanto eu esperava. Pela conversa depreendi que o tal amigo tinha se engasgado - sim, isso mesmo - recentemente em um restaurante e só não morreu porque um colega fez uma manobra e espremeu o cara até que ele cuspisse o alimento entalado. Uns cinco minutos depois o médico desligou e não pediu desculpas. Apenas confirmou que era um amigo que tinha se engasgado... Ah! Tá.
Contei rapidamente meus sintomas, ele deu uma olhada na minha garganta, apertou atrás das minhas orelhas e olhou meus olhos, que estavam vermelhíssimos. Eu falei: Viu meus olhos? E ele: Sim, lindíssimos! (Onde é que eu fui amarrar meu burro?) Então ele fala que provavelmente seja uma virose mas quer um hemograma, um raio X de face e um de tórax, para se assegurar de que não é nada mais grave. Mas ele não me entrega rapidamente as requisições e a receita de um medicamento para aliviar os sintomas. Não. Antes eu tenho que escutar um resumo da vida do cara, onde ele se pós-graduou, seu hobby culinário, onde ele compra carne, o tamanho do seu freezer, quantas filhas e quantos empregados ele tem, tudo é claro, tão relevante para meu tratamento quanto o episódio de salvamento do seu amigo glutão.
Normalmente gosto de jogar conversa fora. E reconheço que o cara além de bonitinho até é bom de papo. Então a teoria da relatividade faz sentido. Quando a gente não está bem, a úlitma coisa que interessa é fazer novas amizades. Ficamos absolutamente autocentrados e quaisquer coisas que não digam respeito a nós mesmos e nossa cura são totalmente supérfluas e desprovidas de interesse. Desta forma tudo o que quero é comprar algo que faça eu me sentir melhor. Compro o tal pozinho que ele me receitou e estou tão desagradavelmente mal que nem percebo que o troço tem sabor de menta-aniz. Havia outras opções, conforme li na bula depois. Mas o Spidufen 600 não trouxe o alívio imediato com o qual eu sonhava.
Na manhã do dia seguinte, ainda febril, vou a uma clínica pneumológica para fazer os exames. Não tenho pnueumonia, nem sinusite, nem infecção. É uma virose mesmo e esse outro médico barbudo me receita mais Tylenol e um antibiótico novo que eu compro e, ao ler a bula gigantesca, descubro que serve para tratar pneumonia bacteriana - que eu não tenho - e que não serve para tratar virose - que eu tenho. Decido tomar, mesmo asim, tão mal estou me sentindo, e resolvo não questionar as razões do segundo médico.
Dois dias depois a febre não havia baixado e eu não conseguia mais comer nada, tamanho o enjôo que eu sentia. Para agravar o quadro, tive um dos mil e trocentos efeitos colatereis previstos na bula: urticária nas palmas das mãos e pés, que ficaram vermelhíssimos e coçando muuuuuuuuuuuito.
Resumo da opereta: parei com todos os medicamentos e decidi morrer lentamente, de forma natural, de febre, fome e sede, já que até o gosto da água me provocava náuseas. Ao final do oitavo dia constatei que ainda não deveria ser minha hora, pois a febre cedeu, as mãos desincharam, consegui comer dois palitinhos com sal.
E aqui estou eu. Sobrevivi. Minha cabeça ainda está meio flutuante, mas já consigo ler e escrever. As articulações dóem mas acho que a virose está superada. Amo minha casa e amo o ócio, mas voltar ao trabalho nunca me pareceu tão convidativo.
Aos leitores que não desistiram de mim, aguardem. Nestor está de volta!
Fui atendida rapidamente, ou melhor, colocada para dentro do consultório rapidamente, pois o médico estava ao celular com um amigo com quem colocou as fofocas em dia enquanto eu esperava. Pela conversa depreendi que o tal amigo tinha se engasgado - sim, isso mesmo - recentemente em um restaurante e só não morreu porque um colega fez uma manobra e espremeu o cara até que ele cuspisse o alimento entalado. Uns cinco minutos depois o médico desligou e não pediu desculpas. Apenas confirmou que era um amigo que tinha se engasgado... Ah! Tá.
Contei rapidamente meus sintomas, ele deu uma olhada na minha garganta, apertou atrás das minhas orelhas e olhou meus olhos, que estavam vermelhíssimos. Eu falei: Viu meus olhos? E ele: Sim, lindíssimos! (Onde é que eu fui amarrar meu burro?) Então ele fala que provavelmente seja uma virose mas quer um hemograma, um raio X de face e um de tórax, para se assegurar de que não é nada mais grave. Mas ele não me entrega rapidamente as requisições e a receita de um medicamento para aliviar os sintomas. Não. Antes eu tenho que escutar um resumo da vida do cara, onde ele se pós-graduou, seu hobby culinário, onde ele compra carne, o tamanho do seu freezer, quantas filhas e quantos empregados ele tem, tudo é claro, tão relevante para meu tratamento quanto o episódio de salvamento do seu amigo glutão.
Normalmente gosto de jogar conversa fora. E reconheço que o cara além de bonitinho até é bom de papo. Então a teoria da relatividade faz sentido. Quando a gente não está bem, a úlitma coisa que interessa é fazer novas amizades. Ficamos absolutamente autocentrados e quaisquer coisas que não digam respeito a nós mesmos e nossa cura são totalmente supérfluas e desprovidas de interesse. Desta forma tudo o que quero é comprar algo que faça eu me sentir melhor. Compro o tal pozinho que ele me receitou e estou tão desagradavelmente mal que nem percebo que o troço tem sabor de menta-aniz. Havia outras opções, conforme li na bula depois. Mas o Spidufen 600 não trouxe o alívio imediato com o qual eu sonhava.
Na manhã do dia seguinte, ainda febril, vou a uma clínica pneumológica para fazer os exames. Não tenho pnueumonia, nem sinusite, nem infecção. É uma virose mesmo e esse outro médico barbudo me receita mais Tylenol e um antibiótico novo que eu compro e, ao ler a bula gigantesca, descubro que serve para tratar pneumonia bacteriana - que eu não tenho - e que não serve para tratar virose - que eu tenho. Decido tomar, mesmo asim, tão mal estou me sentindo, e resolvo não questionar as razões do segundo médico.
Dois dias depois a febre não havia baixado e eu não conseguia mais comer nada, tamanho o enjôo que eu sentia. Para agravar o quadro, tive um dos mil e trocentos efeitos colatereis previstos na bula: urticária nas palmas das mãos e pés, que ficaram vermelhíssimos e coçando muuuuuuuuuuuito.
Resumo da opereta: parei com todos os medicamentos e decidi morrer lentamente, de forma natural, de febre, fome e sede, já que até o gosto da água me provocava náuseas. Ao final do oitavo dia constatei que ainda não deveria ser minha hora, pois a febre cedeu, as mãos desincharam, consegui comer dois palitinhos com sal.
E aqui estou eu. Sobrevivi. Minha cabeça ainda está meio flutuante, mas já consigo ler e escrever. As articulações dóem mas acho que a virose está superada. Amo minha casa e amo o ócio, mas voltar ao trabalho nunca me pareceu tão convidativo.
Aos leitores que não desistiram de mim, aguardem. Nestor está de volta!
domingo, 13 de junho de 2010
Por você eu largo tudo...
Pois é, a história do violão rendeu, e já estou tocando com alguma desenvoltura. Até gravei um clipe que passei para um crítico, sem muita expectativa, mas que rendeu elogios. Entretanto não foi por causa da minha carreira musical que abandonei temporariamente o blog. Pelo contrário, foi tocando a música "Exagerado", do Cazuza, que eu me dei conta de que ultimamente tenho deixado tudo o mais de lado em nome de uma arrebatadora paixão.
Fazia tempo que não me apaixonava assim, a ponto de não conseguir dormir sem antes me dedicar a ele. E até a reduzir minhas preciosas horas de sono para dar a ele mais uns minutinhos que, de tão deliciosos, se prolongam em horas... Ai, ai, ai. Quem dera todos um dia pudessem sentir uma atração asssim.
E ele, a rigor, nem é assim tão especial, mas tem um jeito que me prende, confesso. Percebi que me apaixonaria quando Isabela Boscov comentou que ele era um editor de revista sueco, que tinha escrito nada menos que dez resenhas de livros (dez!) e que só depois de ter concluído o segundo é que foi providenciar a publicação. Poxa! O cara estava preparado para mandar ver dez livros! Percebi que precisava conhecê-lo. E logo.
Mas, prosseguia Isabela, mal ele tinha terminado de escrever o terceiro livro da série, teve um piti ao subir a escadaria da sua revista (parece que ele era extremamente sedentário) e... catapuft! Morreu! Bateu as botas! Foi ter com o sete peles! O que não diminuiu meu interesse.
Mal acabei de escutar a crítica do primeiro filme - pois os livros foram adaptados para o cinema - corri para a Saraiva.com e encomendei a Trilogia Millenium, de Stieg Larsson. Quatro dias depois estava com a caixa sobre a cama, retirando três grossos volumes de umas 500, 600 páginas cada. Abri e inspirei o aroma de papel novo... delícia!!
Trata-se de uma trama de mistério, uma espécie de suspense policial. São apenas três livros, já que o cara teve o desprazer de sair de cena antes da hora. O título do primeiro, que eu acabei de ler na semana passada, é "Os homens que não gostavam das mulheres". O do segundo, que eu estou na metade e vou pegar daqui a pouco, é "A menina que brincava com fogo". O do último é "A rainha do castelo de ar".
Não é nenhum livro "cabeça" ou coisa que o valha. É simplesmente entretenimento. Do jeito que eu gosto. Sobrou um tempinho? Corro para ler nem que seja uma página. E, quando retomo a leitura, o que está ao redor desaparece, como deve ser.
Noutro dia estava discutindo com um amigo sobre o que é um bom filme e ele tentava me convencer de que às veze um filme não tão bom pode trazer referências a outros diretores ou tentar provocar alguma reflexão ou... bem, até pode ser. Mas eu considero um bom filme aquele que me faz esquecer que estou no cinema. Me retira do mundo real por cerca de duas horas. Posso até refletir ou perceber eventuais referências ou técnicas ou coisa e tal mas... depois. Depois que eu saí do cinema feliz, triste, abalada, chocada, o que for. Durante, ou seduz ou não. Sem meio termo.
Um bom livro é do mesmo jeito: vou folhando as páginas e saindo de mim para viver ou observar a realidade criada pelo autor. Se ele for capaz de prender minha atenção durante a leitura, ótimo. Mas se eu começo a me aborrecer porque o médico atendeu na hora certa e eu não tive tempo de acabar o capítulo... é porque se trata de paixão.
Pode?
Fazia tempo que não me apaixonava assim, a ponto de não conseguir dormir sem antes me dedicar a ele. E até a reduzir minhas preciosas horas de sono para dar a ele mais uns minutinhos que, de tão deliciosos, se prolongam em horas... Ai, ai, ai. Quem dera todos um dia pudessem sentir uma atração asssim.
E ele, a rigor, nem é assim tão especial, mas tem um jeito que me prende, confesso. Percebi que me apaixonaria quando Isabela Boscov comentou que ele era um editor de revista sueco, que tinha escrito nada menos que dez resenhas de livros (dez!) e que só depois de ter concluído o segundo é que foi providenciar a publicação. Poxa! O cara estava preparado para mandar ver dez livros! Percebi que precisava conhecê-lo. E logo.
Mas, prosseguia Isabela, mal ele tinha terminado de escrever o terceiro livro da série, teve um piti ao subir a escadaria da sua revista (parece que ele era extremamente sedentário) e... catapuft! Morreu! Bateu as botas! Foi ter com o sete peles! O que não diminuiu meu interesse.
Mal acabei de escutar a crítica do primeiro filme - pois os livros foram adaptados para o cinema - corri para a Saraiva.com e encomendei a Trilogia Millenium, de Stieg Larsson. Quatro dias depois estava com a caixa sobre a cama, retirando três grossos volumes de umas 500, 600 páginas cada. Abri e inspirei o aroma de papel novo... delícia!!
Trata-se de uma trama de mistério, uma espécie de suspense policial. São apenas três livros, já que o cara teve o desprazer de sair de cena antes da hora. O título do primeiro, que eu acabei de ler na semana passada, é "Os homens que não gostavam das mulheres". O do segundo, que eu estou na metade e vou pegar daqui a pouco, é "A menina que brincava com fogo". O do último é "A rainha do castelo de ar".
Não é nenhum livro "cabeça" ou coisa que o valha. É simplesmente entretenimento. Do jeito que eu gosto. Sobrou um tempinho? Corro para ler nem que seja uma página. E, quando retomo a leitura, o que está ao redor desaparece, como deve ser.
Noutro dia estava discutindo com um amigo sobre o que é um bom filme e ele tentava me convencer de que às veze um filme não tão bom pode trazer referências a outros diretores ou tentar provocar alguma reflexão ou... bem, até pode ser. Mas eu considero um bom filme aquele que me faz esquecer que estou no cinema. Me retira do mundo real por cerca de duas horas. Posso até refletir ou perceber eventuais referências ou técnicas ou coisa e tal mas... depois. Depois que eu saí do cinema feliz, triste, abalada, chocada, o que for. Durante, ou seduz ou não. Sem meio termo.
Um bom livro é do mesmo jeito: vou folhando as páginas e saindo de mim para viver ou observar a realidade criada pelo autor. Se ele for capaz de prender minha atenção durante a leitura, ótimo. Mas se eu começo a me aborrecer porque o médico atendeu na hora certa e eu não tive tempo de acabar o capítulo... é porque se trata de paixão.
Pode?
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Resistência
Há cerca de duas semanas comprei um violão. Não sou absolutamente neutro quanto a aspectos musicais. Fiz algumas aulas de violão lá pelos meus oito anos. Até participei de um programa de TV onde a Tia Suzi escolhia três calouros que se apresentavam e eram classificados por alguns jurados infantis. Nas minhas três participações fiquei em terceiro lugar (!) o que talvez tenha desestimulado minha carreira artística.
Mas fugi do ponto. O fato é que nessa época aprendi alguns acordes elementares, aqueles que minhas pequenas mãos conseguiam alcançar no braço do violão: Lá maior, Lá menor, Lá 7, Ré maior, Ré menor, Mi, Sol, Dó maior.
Fá e Si, nem pensar. Exigiam pestana.
Antes que eu crescesse, e não se cresce em alguns meses, pelo menos não muito, e conseguisse realizar as pestanas com alguma desenvoltura, me desinteressei pelo violão e abandonei as aulas da professora Odete, uma senhora muito baixinha, com uns traços de nanismo, que me desagradava por completo.
Bem, isso aconteceu no período jurássico. Agora, morando eternamente numa casa de praia, me pareceu que um violão cairia bem. E com a Internet ofertando todo o tipo de ajuda... por que não? Escolhi um modelo com o braço fino, para afastar de vez o fantasma das pestanas e com um afinador eletrônico acoplado. Perfeito. E vamos à Internet procurar um professor que agrade.
Aí vem a novidade. Cadê o Lá, o Ré e o Mi? Foram substituídos por letras. A partir do Lá começaram a renomear A, B, C... e as músicas com letras cifradas estão todas com essas malfadadas maiúsculas que confundem meu cérebro enferrujado.
Decido tentar esquecer as antigas referências, mas... resistência. Resistência a algo que mudou. Dificuldade mesmo. Vontade de estrangular quem inventou essa porcaria de simbologia. Por quê? Estava tão bom antes? Mudar prá que?
Percebo a inutilidade dessa ranhetice quando um amigo, uns mil anos mais jovem, fala que sempre foi assim. Como assim, cara pálida? Sempre uma pinóia! E adianta reclamar? Nada! Sei bem disso. Mas cada vez que eu vejo aqueles bracinhos de violão com as marcações dos locais onde se devem colocar os dedos apresentando um A7, um B# ou um D, dá uma raiva!! E aumenta minha resistência.
Bem, noutro dia falei do despencamento inevitável da pele. Agora falo do endurecimento inevitável do cérebro. Endurecimento sim. O termo vem de cabeça dura. Creio que com o passar dos anos o corpo amolece e a mente endurece. Que slogan... Mas não tem tudo a ver? Ou muito a ver, já que tudo é um pouco absoluto demais?
Corpo duro, cabeça mole. Corpo mole, cabeça dura.
É elementar, meus caros.
E resistência é uma faca de dois gumes.
Ando resistindo a sair de casa para fazer coisas chatas. Por que jantar com um grupo que só fala coisas que não me interessam ou não me agradam? Há algum tempo saía todas as noites, achava que estar com muitas pessoas me tornava alguém melhor. Agora resisto a isso.
Resisto a ir ao cinema aqui na praia. Como me concentrar no telão se alguém ao lado tirou o chinelo (sim, aqui se vai de chinelo ao cinema - e a praticamente qualquer lugar) e colocou os pés cheios de dedos sobre a poltrona ao me lado? Como me emocionar com uma cena se o vizinho está ao celular explicando para a mãe, que acabou de ligar, que ele está no cinema e não pode falar agora?
Resisto ao sim. O não está muito presente em meu vocabulário. Não, não quero jantar. Não, não quero dividir o dinheiro do presente. Não, não quero fazer essa viagem com um monte de pessoas chatas.
Resisto a pessoas que mentem descaradamente. Cansei. Perdi a vontade de entender porque elas fazem isso. Não que eu não minta. Minto, como todos. Mas escutar mentiras desnecessárias, me poupe. Me deixe só. Prefiro meus cães.
Não tenho pressa e muita coisa me interessa, mas estou selecionando. Não vai dar tempo prá tudo. Assim, só vou parar de resistir a algumas coisas, àquelas que acho que valem a pena.
Vou parar de resistir às maiúsculas das aulas de violão.
Mas fugi do ponto. O fato é que nessa época aprendi alguns acordes elementares, aqueles que minhas pequenas mãos conseguiam alcançar no braço do violão: Lá maior, Lá menor, Lá 7, Ré maior, Ré menor, Mi, Sol, Dó maior.
Fá e Si, nem pensar. Exigiam pestana.
Antes que eu crescesse, e não se cresce em alguns meses, pelo menos não muito, e conseguisse realizar as pestanas com alguma desenvoltura, me desinteressei pelo violão e abandonei as aulas da professora Odete, uma senhora muito baixinha, com uns traços de nanismo, que me desagradava por completo.
Bem, isso aconteceu no período jurássico. Agora, morando eternamente numa casa de praia, me pareceu que um violão cairia bem. E com a Internet ofertando todo o tipo de ajuda... por que não? Escolhi um modelo com o braço fino, para afastar de vez o fantasma das pestanas e com um afinador eletrônico acoplado. Perfeito. E vamos à Internet procurar um professor que agrade.
Aí vem a novidade. Cadê o Lá, o Ré e o Mi? Foram substituídos por letras. A partir do Lá começaram a renomear A, B, C... e as músicas com letras cifradas estão todas com essas malfadadas maiúsculas que confundem meu cérebro enferrujado.
Decido tentar esquecer as antigas referências, mas... resistência. Resistência a algo que mudou. Dificuldade mesmo. Vontade de estrangular quem inventou essa porcaria de simbologia. Por quê? Estava tão bom antes? Mudar prá que?
Percebo a inutilidade dessa ranhetice quando um amigo, uns mil anos mais jovem, fala que sempre foi assim. Como assim, cara pálida? Sempre uma pinóia! E adianta reclamar? Nada! Sei bem disso. Mas cada vez que eu vejo aqueles bracinhos de violão com as marcações dos locais onde se devem colocar os dedos apresentando um A7, um B# ou um D, dá uma raiva!! E aumenta minha resistência.
Bem, noutro dia falei do despencamento inevitável da pele. Agora falo do endurecimento inevitável do cérebro. Endurecimento sim. O termo vem de cabeça dura. Creio que com o passar dos anos o corpo amolece e a mente endurece. Que slogan... Mas não tem tudo a ver? Ou muito a ver, já que tudo é um pouco absoluto demais?
Corpo duro, cabeça mole. Corpo mole, cabeça dura.
É elementar, meus caros.
E resistência é uma faca de dois gumes.
Ando resistindo a sair de casa para fazer coisas chatas. Por que jantar com um grupo que só fala coisas que não me interessam ou não me agradam? Há algum tempo saía todas as noites, achava que estar com muitas pessoas me tornava alguém melhor. Agora resisto a isso.
Resisto a ir ao cinema aqui na praia. Como me concentrar no telão se alguém ao lado tirou o chinelo (sim, aqui se vai de chinelo ao cinema - e a praticamente qualquer lugar) e colocou os pés cheios de dedos sobre a poltrona ao me lado? Como me emocionar com uma cena se o vizinho está ao celular explicando para a mãe, que acabou de ligar, que ele está no cinema e não pode falar agora?
Resisto ao sim. O não está muito presente em meu vocabulário. Não, não quero jantar. Não, não quero dividir o dinheiro do presente. Não, não quero fazer essa viagem com um monte de pessoas chatas.
Resisto a pessoas que mentem descaradamente. Cansei. Perdi a vontade de entender porque elas fazem isso. Não que eu não minta. Minto, como todos. Mas escutar mentiras desnecessárias, me poupe. Me deixe só. Prefiro meus cães.
Não tenho pressa e muita coisa me interessa, mas estou selecionando. Não vai dar tempo prá tudo. Assim, só vou parar de resistir a algumas coisas, àquelas que acho que valem a pena.
Vou parar de resistir às maiúsculas das aulas de violão.
sábado, 22 de maio de 2010
Mentiras sinceras me interessam...
Mulher! Nem consegui dormir direito pensando naquilo que você contou! Como é que você sai correndo e deixa o cara lá, sem dizer palavra? Te contá, hein, Claudinha! Ainda mais um aleijado. Deus o livre! Isso não se faz, visse? E logo um desses, todo bonzinho, que você já conhecia tão bem. Pensa que homem dá em árvore, é? Mas se não chamar de aleijado chamo de quê? Olha que você tá ficando mais é besta, visse? Deficiente. Tá bom. Deficiente. Mas me conta o que deu na tua cabeça. Pois eu sei que ele mentiu. Escondeu que era ale... deficiente. Mas vai saber o que ele pensou. Como não podia? E você não mentiu nunquinha prá ele? Mulher!! Eu te conheço, corto um dedinho se você contou tudo prá ele, tintim por tintim. Duvideodó! Ah! Bonito. Você podia ter medo que ele desse o fora se soubesse de tudo, mas ele não podia. Sim, concordo. Se ele mentiu isso, também pode ter mentido sobre o dinheiro, a profissão, o vidão... mas não é fugindo que você vai saber se é ou não é verdade. Tinha que ter dado uma chance pro pobre se explicar. E para com isso. Cara feia prá mim é fome. Só porque sou sua amiga não significa que eu vou achar todas as besteiras que você faz bonitinhas. Cuida! Para de se mexer que vai borrar o esmalte outra vez e eu não vou mais ajeitar! Tá chorando por quê? Ainda bem que arrependimento não mata. É só ir lá na lan house e mandar uma mensagem dizendo que fez bobagem. Pedir perdão. Claro que ele vai aceitar. Homem é tudo mole. E ainda mais ele, que não deve ser muito cheio de mulheres... Chega de lamúria, Claudinha. Queria o quê? Um príncipe encantado montado num cavalo branco? Vai ficar dando uma de orgulhosa e passar o resto da vida enfiada naquela enfermaria, trabalhando que nem burro de carga, prá chegar no final do mês e o dinheiro dar só para pagar as contas? E daí se ele não puder transar! Não é você que vive dizendo que não gosta? Que se não fosse precisar de um extra de vez em quando mandava aquele médico velho pastar e não dava prá mais ninguém? Pense. Vai ser até bom. Não adianta, nada que você me diga vai me fazer mudar de idéia. E se você não estivesse arrependida não estaria aqui jogando conversa fora. Pena de você? Nada! Pena eu tenho é dele! Olha Claudinha, se isso que você está me dizendo é mesmo verdade, que você estava gostando dele, que já pensava até em casar, em ficar com ele prá sempre, então vai à luta, colega. Não é todo dia que aparece uma oportunidade dessas. Claro que não é o que você sonhou! E por acaso já se viu alguém rezando para aparecer um aleijado? Tá, desculpa! Saiu sem querer! Mas e se ele é mesmo tudo o que disse? E se todo o resto for verdade? Ele não vai esperar prá sempre, visse? Agora apóia a cabeça aqui para eu dar jeito nessa sobrancelha.
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Para: Luiz Claudio Cerqueira Albuquerque
Assunto: Desculpa?
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Para: Luiz Claudio Cerqueira Albuquerque
Assunto: Desculpa?
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