Ontem assisti ao filme Cisne Negro, com Natalie Portman e Vincent Cassel, que conta a história de uma gorota meio travada que se esforça para ser a primeira bailarina de uma companhia e protagonizar o clássico Lago dos Cisnes. Ela está ótima! Acho até que vai levar o Oscar de melhor atriz. E é linda, toda miudinha, traços clássicos, delicada... o que contrasta com ele, o total, o absoluto, o rude Vincent Cassel. Se há alguém capaz de personificar o adjetivo "masculino" é ele. Alto, forte, elegante, feio no exato limite . Simplesmente per-fei-to.
Bem, voltando ao filme, que recomendo muito, tem uma direção competente que faz com que a gente se envolva gradativamente até levar um soco no estômago, no fim.
Mas quero falar hoje sobre um aspecto que permeia a ação o tempo todo: o controle.
Controle dos movimentos, controle das emoções, dos pensamentos e das ações. Nina tenta tanto se manter certinha, boazinha, perfeitinha, que uma parte dela reage a isso através de auto-mutilação.
Tenho um pouco de medo das pessoas que são muito boas, muito controladas, que não brigam, que não se defendem, que apenas abaixam a cabeça e aceitam resignadamente o que vier. Tenho sempre a impressão de que haverá um momento em que, como uma bolha, vão começar a inflar, inflar, inflar, até que... Bum! Ou então detona-se uma série de problemas físicos ou psicológicos que nada mais são do que sintomas do excesso de auto-controle.
Como nesse período pré-oscar eu gosto de ver pelo menos aqueles filmes que concorrem às principais categorias, vi hoje O Discurso do Rei, com Colin Firth (costas perfeitas, esguio, alto, quadris estreitos, ombros largos... se eu fosse mulher, diria que estou ovulando). Bom filme, bom papel, mas acho que tantas indicações não procedem. Entretanto voltemos ao controle. Neste filme ele faz o papel do Duque de York, futuro Rei George VI, da Inglaterra (a história é verídica), que tinha um seríssimo problema de gagueira. Ele foi criado de forma extremamente severa, totalmete tolhido. Cheio de protocolos. Entre outras limitações, não podia escolher seus passatempos favoritos, tampouco usar a mão esquerda, que era sua mão dominante. Imaginem o absurdo. Controle. Excesso de controle. Resultado: gagueira. Incapacidade de se comunicar adequadamente.
O que não significa acreditar que devamos todos sair loqueando por aí (do verbo loquear, recém-inventado), totalmente descontrolados. Mas falar e fazer umas besteiras de vez em quando nos aproxima, se não da normalidade, pelo menos da sanidade!
E o ganso do título?
Ganso, cisne, marreco, não são todos patos?
Parem de me controlar!
Nada tão especial que necessite publicidade (nem tão sem graça que não interesse a ninguém).
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Faces
Assiti ao filme "A Rede Social" que conta o surgimento do Facebook. Gostei. Achei bem dirigido. Talvez eu deva esclarecer que na minha concepção uma boa direção significa fazer com que eu permaneça interessado no filme durante toda a sua duração. Talvez essa não seja a mais clássica definição, mas...
E também considero um bom filme aquele que no outro dia ainda está sofrendo algum tipo de processamento, aquele que rende reflexões e questionamentos. Esse rendeu. Hoje fiquei pensando em quantos amigos, assim como eu, fazem parte do Facebook. Assim como eu? Bem, eu apenas estou lá, para, eventualmente, ser encontrado. Mas tenho amigos que realmente se envolvem nisso. Devem passar horas na frente do computador, a julgar pela montoeira de coisas que publicam em seus murais e páginas pessoais.
Há algum tempo eu pensaria que isso é bem coisa de jovens americanos, com dificuladades de relacionamento, que vivem sob uma forte pressão social, que tenta encaixar todo mundo em alguma forma pré-definida. Então eles preferem fazer amigos de forma virtual, evitando as agruras da vida real.
Não mais. Hoje parece que todo mundo ficou desse jeito. Vejo pessoas da idade da pedra (a minha) que também entraram nessa neurose coletiva de ter que mostrar ao mundo cada coisinha que viram, fizeram, ouviram dizer... A gurizada agora se comporta como os japoneses viajantes de outrora (lembram?) que fotografavam tudo o que viam. Click, click, click... Eu, sempre que cruzava com um grupo de japoneses, ficava pensando se eles conseguiam aproveitar a viagem ou se só conheceriam os países que estavam visitando depois, em casa, quando revelassem as fotos.
Agora em qualquer lugar é assim: nas festas, nos restaurantes, nos shows, na rua. Foto, foto, foto, pose, sorriso, biquinho, ombros, foto, foto, foto. E a festa? Está boa? Não sei, ainda! Deixa antes eu botar as fotos no Face.
E quando não é a foto, é a música que escutou, é o vídeo do You Tube, é a frase do fulando que curtiu... Mas, dirão, e não é o que se faz com os amigos? A gente não conversa com eles sobre todas essas coisas? Sim, claro que sim, mas com mil quinhentos e vinte e três amigos?????? E lá vem musiquinha pela frente e, preparem-se, essa é beeeem velha:
Eu quero ter um milhão de amigos
E bem mais forte poder cantar
Erasmo e Roberto agora podem ter! Nem eles imaginavam que um dia um milhão de amigos iriam estar ali, à mão, facinho, facinho!
O que eu questiono é esse desejo incontido de se mostrar ao mundo. Fui para o nordeste, fui para o sul, fui para a Europa, olha a minha foto de biquini em Arroio do Sal (e lá vai a baleia celulitada fazer pose na frente de um muro chapiscado, com uma toalha de banho cheia de fios puxados aparecendo no cantinho...). Péra aí, gente. Pó pará.
Será que vale a pena essa exposição toda? Porque é que essa rede social que o Mark Elliot Zuckerberg criou em 2004 encanta tanta gente? Dar a cara a tapa todo o dia é assim tão necessário? Que mistério é esse que não decifro? Sinto-me diante da esfinge... não, não da esfinge, da pirâmide.
De Maslow.
E também considero um bom filme aquele que no outro dia ainda está sofrendo algum tipo de processamento, aquele que rende reflexões e questionamentos. Esse rendeu. Hoje fiquei pensando em quantos amigos, assim como eu, fazem parte do Facebook. Assim como eu? Bem, eu apenas estou lá, para, eventualmente, ser encontrado. Mas tenho amigos que realmente se envolvem nisso. Devem passar horas na frente do computador, a julgar pela montoeira de coisas que publicam em seus murais e páginas pessoais.
Há algum tempo eu pensaria que isso é bem coisa de jovens americanos, com dificuladades de relacionamento, que vivem sob uma forte pressão social, que tenta encaixar todo mundo em alguma forma pré-definida. Então eles preferem fazer amigos de forma virtual, evitando as agruras da vida real.
Não mais. Hoje parece que todo mundo ficou desse jeito. Vejo pessoas da idade da pedra (a minha) que também entraram nessa neurose coletiva de ter que mostrar ao mundo cada coisinha que viram, fizeram, ouviram dizer... A gurizada agora se comporta como os japoneses viajantes de outrora (lembram?) que fotografavam tudo o que viam. Click, click, click... Eu, sempre que cruzava com um grupo de japoneses, ficava pensando se eles conseguiam aproveitar a viagem ou se só conheceriam os países que estavam visitando depois, em casa, quando revelassem as fotos.
Agora em qualquer lugar é assim: nas festas, nos restaurantes, nos shows, na rua. Foto, foto, foto, pose, sorriso, biquinho, ombros, foto, foto, foto. E a festa? Está boa? Não sei, ainda! Deixa antes eu botar as fotos no Face.
E quando não é a foto, é a música que escutou, é o vídeo do You Tube, é a frase do fulando que curtiu... Mas, dirão, e não é o que se faz com os amigos? A gente não conversa com eles sobre todas essas coisas? Sim, claro que sim, mas com mil quinhentos e vinte e três amigos?????? E lá vem musiquinha pela frente e, preparem-se, essa é beeeem velha:
Eu quero ter um milhão de amigos
E bem mais forte poder cantar
Erasmo e Roberto agora podem ter! Nem eles imaginavam que um dia um milhão de amigos iriam estar ali, à mão, facinho, facinho!
O que eu questiono é esse desejo incontido de se mostrar ao mundo. Fui para o nordeste, fui para o sul, fui para a Europa, olha a minha foto de biquini em Arroio do Sal (e lá vai a baleia celulitada fazer pose na frente de um muro chapiscado, com uma toalha de banho cheia de fios puxados aparecendo no cantinho...). Péra aí, gente. Pó pará.
Será que vale a pena essa exposição toda? Porque é que essa rede social que o Mark Elliot Zuckerberg criou em 2004 encanta tanta gente? Dar a cara a tapa todo o dia é assim tão necessário? Que mistério é esse que não decifro? Sinto-me diante da esfinge... não, não da esfinge, da pirâmide.
De Maslow.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Quem é esse cara?
Tomei um baita susto hoje de manhã. Mas bah, tchê? Quem é esse senhor aqui no meu banheiro? Sim, já sei que a oposição de plantão, de forma pouquíssimo original, vai dizer que eu devo ter bebido demais e esquecido do cara que trouxe prá casa ontem à noite! Coisa de gayúcho, acrescentarão. Até seria melhor alternativa. Mas não foi isso. Em casa só eu e meus guaipecas. E, lamentavelmente, esse idoso, de barba branca mal feita e cabelos desgrenhados que me olha fundo nos olhos, sou eu mesmo!
É um alento pensar que Nando Reis já teve um encontro assim com seu espelho. Ele não deve ser mais novo que eu, mas é mais famoso.
Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho
Não sei o que aconteceu de ontem para hoje. Juro que fiquei assim de repente. Surgiram uns pelos estranhamente compridos nas minhas sobrancelhas. Uns pés de galinha se instalaram nos cantos dos olhos. Minha pele ficou toda manchada.
Voltei rapidamente para a cama. Talvez fosse um pesadelo e quando eu acordasse de verdade as coisas tivessem voltado ao normal. Não adiantou. Repeti o procedimento dezenove vezes. Vai que é um pesadelo recorrente? Nada. Foi então que tive a pior ideia que poderia ter me ocorrido. E digo, não faça isso em casa. Não repita o procedimento que a seguir vou descrever, pois poderá causar danos psicológicos irreversíveis.
Convencido de que era o espelho do banheiro que apresentava problemas, parti em busca de um espelho menor, quadradinho, daqueles bem fuleiros, com a moldura alaranjada, que estava guardado no fundo de um armário (nem sei porque comprei isso um dia). Ainda de pijamas, deitei atravessado sobre a cama, de barriga para baixo, com os braços e a cabeça para fora da cama e coloquei o espelhinho no chão. Horror, horror! O velho foi substituído por um shar pei!! Sabe aquele cachorro que é todo rugas? Minhas bochechas multiplicaram-se assombrosamente, impulsionadas pela força da gravidade. Meu roso todo se descolou de mim! Horror, horror! Não faça isso sem o acompanhamento de um profissional capacitdo. Ou, melhor, não faça isso.
Como judeus de luto pensei em cobrir todos os espelhos da casa. Em evitar paredes envidraçadas. Ao invés disso, decidi enfrentá-lo: espelho espelho meu, podes refletir meu verdadeiro eu?
Vitória! Meu sorriso no espelho era o mesmo que eu tinha quando, moleque, vencia uma boa peleia! O espelho da alma não está pendurado na minha casa. Não está nas vidraças nem nas pessoas que gostam ou que não gostam de mim. Ele não está fora.
E, quer saber? Até que esse velhote aí no banheiro é bem interessante!
É um alento pensar que Nando Reis já teve um encontro assim com seu espelho. Ele não deve ser mais novo que eu, mas é mais famoso.
Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho
Não sei o que aconteceu de ontem para hoje. Juro que fiquei assim de repente. Surgiram uns pelos estranhamente compridos nas minhas sobrancelhas. Uns pés de galinha se instalaram nos cantos dos olhos. Minha pele ficou toda manchada.
Voltei rapidamente para a cama. Talvez fosse um pesadelo e quando eu acordasse de verdade as coisas tivessem voltado ao normal. Não adiantou. Repeti o procedimento dezenove vezes. Vai que é um pesadelo recorrente? Nada. Foi então que tive a pior ideia que poderia ter me ocorrido. E digo, não faça isso em casa. Não repita o procedimento que a seguir vou descrever, pois poderá causar danos psicológicos irreversíveis.
Convencido de que era o espelho do banheiro que apresentava problemas, parti em busca de um espelho menor, quadradinho, daqueles bem fuleiros, com a moldura alaranjada, que estava guardado no fundo de um armário (nem sei porque comprei isso um dia). Ainda de pijamas, deitei atravessado sobre a cama, de barriga para baixo, com os braços e a cabeça para fora da cama e coloquei o espelhinho no chão. Horror, horror! O velho foi substituído por um shar pei!! Sabe aquele cachorro que é todo rugas? Minhas bochechas multiplicaram-se assombrosamente, impulsionadas pela força da gravidade. Meu roso todo se descolou de mim! Horror, horror! Não faça isso sem o acompanhamento de um profissional capacitdo. Ou, melhor, não faça isso.
Como judeus de luto pensei em cobrir todos os espelhos da casa. Em evitar paredes envidraçadas. Ao invés disso, decidi enfrentá-lo: espelho espelho meu, podes refletir meu verdadeiro eu?
Vitória! Meu sorriso no espelho era o mesmo que eu tinha quando, moleque, vencia uma boa peleia! O espelho da alma não está pendurado na minha casa. Não está nas vidraças nem nas pessoas que gostam ou que não gostam de mim. Ele não está fora.
E, quer saber? Até que esse velhote aí no banheiro é bem interessante!
Agradável surpresa
Não é novidade alguma que sou grande admiradora da Martha Medeiros, ainda que ache que eventulamente ela erre a mão, como no último livro "Fora de Mim". Pois neste domingo, como sói, estava buscando sua coluna na edição virtual do Zero Hora. Não encontrei, então fui para o seu blog e navegando pelas últimas postagens li o comentário ao último filme de Woddy Allen, de quem ela é fã assumidíssima. Até aí nada de novo sob o sol. Nestor que ama Martha, que ama Woddy... mas ela termina o texto dando um link para outro blog. De Tony Belotto. Tony Belotto? O titã? Sim, eu sabia que ele escrevia livros policiais, e me parecia de que ele também tinha uma coluna em alguma revista. Mas nunca havia lido nada dele. Por isso gosto de links: click... e com vocês, tchan, tchan, tchan, tchan... Tony Bellotto!
Adorei! Gostei do jeito como ele escreve, adorei as indicações, amei a forma como ele aborda cada assunto e agora não posso mais viver sem ele! Vou comprar seus livros e invesigar onde mais ele escreve. Sim, exagero pode ser meu nome, às vezes!
Mas o que realmente me fez feliz foi este encontro. A descoberta. Descobrir algo sempre me fascina. No sentido de encontrar pela primeira vez. A novidade, o inusitado, o original, o estranho, o desconhecido. Há uma emoção ímpar neste desvelar. O olhar fica mais aguçado. A atenção redobrada aos detalhes. Todos os sentidos recebendo novos e desconhecidos estímulos. Nada há que se compare à primeira vez. Conhecer, decifrar, revelar os mistérios. E para que isso aconteça é necessário que se descubra algo novo. Tony Belotto é minha mais nova descoberta!
Reconhecer também é uma forma de descobrir. E com os anos tendemos à redescoberta, ao reconhecimeto. Pois que já se viu e viveu muita coisa. Assim descobrimos pessoas interessantes, ou aspectos interessantes nas mesmas pessoas, reconhecemos lugares fascinantes nos caminhos por onde sempre andamos ou identificamos momentos de plenitude no nosso ordinário cotidiano. E na falta de um zero quilômetro, um semi-novo vai suprindo as necessidades.
Mas nada disso por hoje. Nada de meios prazeres. Nada de pratos requentados, ainda que deliciosos. A Saraiva está a um clique daqui e Tony Belotto me espera!
Adorei! Gostei do jeito como ele escreve, adorei as indicações, amei a forma como ele aborda cada assunto e agora não posso mais viver sem ele! Vou comprar seus livros e invesigar onde mais ele escreve. Sim, exagero pode ser meu nome, às vezes!
Mas o que realmente me fez feliz foi este encontro. A descoberta. Descobrir algo sempre me fascina. No sentido de encontrar pela primeira vez. A novidade, o inusitado, o original, o estranho, o desconhecido. Há uma emoção ímpar neste desvelar. O olhar fica mais aguçado. A atenção redobrada aos detalhes. Todos os sentidos recebendo novos e desconhecidos estímulos. Nada há que se compare à primeira vez. Conhecer, decifrar, revelar os mistérios. E para que isso aconteça é necessário que se descubra algo novo. Tony Belotto é minha mais nova descoberta!
Reconhecer também é uma forma de descobrir. E com os anos tendemos à redescoberta, ao reconhecimeto. Pois que já se viu e viveu muita coisa. Assim descobrimos pessoas interessantes, ou aspectos interessantes nas mesmas pessoas, reconhecemos lugares fascinantes nos caminhos por onde sempre andamos ou identificamos momentos de plenitude no nosso ordinário cotidiano. E na falta de um zero quilômetro, um semi-novo vai suprindo as necessidades.
Mas nada disso por hoje. Nada de meios prazeres. Nada de pratos requentados, ainda que deliciosos. A Saraiva está a um clique daqui e Tony Belotto me espera!
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Rasgar o quê?
Por mais inverossímil que possa parecer, eu escrevo cartas. Talvez seja o caso de explicar que carta é uma coisa que surgiu quando a caneta sucedeu ao tacape. Para quem só ouviu falar, assim, de relance, esclareço que é um e-mail que a gente escreve à mão em um papel e manda entregar para o destinatário por meio do correio (sim, correio é a mesma empresa que traz em casa as compras feitas pela Internet).
Quem achou a introdução dispensável talvez consiga compreender (compartilhar seria pedir muito) essa minha predileção. E tenho certeza de que não há alguém que não se emocione ao receber uma carta à moda antiga, escrita à mão, com letra caprichada, de preferência com caneta tinteiro sobre papel de seda... mmmm. Raras vezes recebi uma dessas! Lamentavelmente nasci algumas décadas depois que esse romântico gesto era frequente.
Fico imaginando a emoção de escrever uma carta de amor! Revelar-se por inteiro e depois esperar... ai, a ansiedade da espera, de pensar que ela não vai responder, que mudou de idéia! Será? E a alegria de receber uma carta e recenhecer a letra daquela a quem se ama! Pensando bem, isso nem sempre pode ser bom, como na música:
Lendo o envelope bonito
No seu sobrescrito eu reconheci
A mesma caligrafia
Que me disse um dia
Estou farto de ti
Até terminar romances é mais fácil por carta! Uma carta é algo definitivo, concreto, que inspira certo temor reverencial. Kid Abelha já dizia:
Tantos sonhos morrem
Em poucas palavras
Um bilhete curto
E já não há nada
Alice não me escreva
Aquela carta de amor
E livrar-se da carta facilita esquecer a vil criatura que não mercece mais respirar o mesmo ar que respiramos. Basta rasgar as cartas, ou ainda melhor, queimá-las (o fogo tem um aspecto purificador), para iniciar o "suma para sempre". Quem leva um fora por e-mail faz o quê? Deleta? Plic. Gesto mais bobo, sem emoção, não vai ajudar muito. Já rasgando... olha aí o final daquela música de antes:
E assim pensando rasguei
Tua carta e queimei
Para não sofrer mais
Ou aquela:
Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim será melhor
Meu bem!
Mas não são apenas de amor, as minhas cartas. E confesso que a cada dia são mais raras. Mas sempre escritas com carinho e com a atenção inteiramente voltada a quem haverá de, em alguns dias, receber notícias minhas e, mais do que isso, saber-se lembrado e querido.
Assim eram também os cartões de Natal e Ano Novo. Escreviam-se cartões para cada um dos amigos, com mensagens personalizadas, frases escolhidas com cuidado, até a estampa do selo, se houvesse selos comemorativos no ano! E isso há pouco tempo. Lembro de, já no final de novembro, iniciar a tarefa com zelo para que chegassem a tempo de ficar sob as árvores de Natal... O princípio do fim foi a criação, pelos correios, de uns cartões xexelentos que já vinham previamente selados e que, a critério do comprador, poderiam conter mensagens imensas, sem espaço para qualquer outra anotação, que não a assinatura do remetente. Desobrigavam-se, assim, as pessoas desse fardo anual. Este antigo modo de cultivar amizades entrava em inexorával declínio.
Bem, aparentemente, significativa parcela da humanidade não sofreu com isso. Pelo contrário. Entrou em sintonia com o mundo virtual. Cartões com estrelinhas, fogos, bichos que se movimentam e falam, papais-noéis com a carinha do remetente (esse até eu usei), toda a sorte de mensagens virtuais (com autorias duvidosíssimas) chegam até nós enviadas por nossos 1517 amigos das redes sociais. Delícia!??
Como não pretendo ser considerado um dinossauro idoso e pesadão, assumi a leveza da comunicação eletrônica e também as facilidades associadas a essa tecnologia. Mas aqueles amigos que consigo contar usando apenas os dedos da minha mão continuarão recebendo, vez por outra, longas cartas escritas com caneta tinteiro sobre papel de seda!
Quem achou a introdução dispensável talvez consiga compreender (compartilhar seria pedir muito) essa minha predileção. E tenho certeza de que não há alguém que não se emocione ao receber uma carta à moda antiga, escrita à mão, com letra caprichada, de preferência com caneta tinteiro sobre papel de seda... mmmm. Raras vezes recebi uma dessas! Lamentavelmente nasci algumas décadas depois que esse romântico gesto era frequente.
Fico imaginando a emoção de escrever uma carta de amor! Revelar-se por inteiro e depois esperar... ai, a ansiedade da espera, de pensar que ela não vai responder, que mudou de idéia! Será? E a alegria de receber uma carta e recenhecer a letra daquela a quem se ama! Pensando bem, isso nem sempre pode ser bom, como na música:
Lendo o envelope bonito
No seu sobrescrito eu reconheci
A mesma caligrafia
Que me disse um dia
Estou farto de ti
Até terminar romances é mais fácil por carta! Uma carta é algo definitivo, concreto, que inspira certo temor reverencial. Kid Abelha já dizia:
Tantos sonhos morrem
Em poucas palavras
Um bilhete curto
E já não há nada
Alice não me escreva
Aquela carta de amor
E livrar-se da carta facilita esquecer a vil criatura que não mercece mais respirar o mesmo ar que respiramos. Basta rasgar as cartas, ou ainda melhor, queimá-las (o fogo tem um aspecto purificador), para iniciar o "suma para sempre". Quem leva um fora por e-mail faz o quê? Deleta? Plic. Gesto mais bobo, sem emoção, não vai ajudar muito. Já rasgando... olha aí o final daquela música de antes:
E assim pensando rasguei
Tua carta e queimei
Para não sofrer mais
Ou aquela:
Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim será melhor
Meu bem!
Mas não são apenas de amor, as minhas cartas. E confesso que a cada dia são mais raras. Mas sempre escritas com carinho e com a atenção inteiramente voltada a quem haverá de, em alguns dias, receber notícias minhas e, mais do que isso, saber-se lembrado e querido.
Assim eram também os cartões de Natal e Ano Novo. Escreviam-se cartões para cada um dos amigos, com mensagens personalizadas, frases escolhidas com cuidado, até a estampa do selo, se houvesse selos comemorativos no ano! E isso há pouco tempo. Lembro de, já no final de novembro, iniciar a tarefa com zelo para que chegassem a tempo de ficar sob as árvores de Natal... O princípio do fim foi a criação, pelos correios, de uns cartões xexelentos que já vinham previamente selados e que, a critério do comprador, poderiam conter mensagens imensas, sem espaço para qualquer outra anotação, que não a assinatura do remetente. Desobrigavam-se, assim, as pessoas desse fardo anual. Este antigo modo de cultivar amizades entrava em inexorával declínio.
Bem, aparentemente, significativa parcela da humanidade não sofreu com isso. Pelo contrário. Entrou em sintonia com o mundo virtual. Cartões com estrelinhas, fogos, bichos que se movimentam e falam, papais-noéis com a carinha do remetente (esse até eu usei), toda a sorte de mensagens virtuais (com autorias duvidosíssimas) chegam até nós enviadas por nossos 1517 amigos das redes sociais. Delícia!??
Como não pretendo ser considerado um dinossauro idoso e pesadão, assumi a leveza da comunicação eletrônica e também as facilidades associadas a essa tecnologia. Mas aqueles amigos que consigo contar usando apenas os dedos da minha mão continuarão recebendo, vez por outra, longas cartas escritas com caneta tinteiro sobre papel de seda!
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
B, de bola...
Bola de meia, bola de gude, o solitário (ou seria o solidário?) não quer solidão, cada vez que o adulto balança o menino me dá a mão... Pensei em B, de Bola, e veio essa musiquinha instantaneamente. Nem eu sabia que ela estava assim tão presente em meu subconsciente. Freud deve explicar. A letra nem deve ser bem assim, e não sei se é do 14 Bis ou do Milton Nascimento. Poderia verificar facilmente em dois segundos, vocês dirão. Mas não quero. Freud também deve ter uma boa explicação para isso. Mas quem quer explicação?
Assim, também sem explicação, pensei em outras bolas: bola cheia, bola murcha, ora bolas, não dar bola, bolada nas costas, chicle de bola...o mundo é uma bola! Bolas, bolinhas, bolotas. Sem falar nos esportes de bola, por cima da rede, dentro da rede, na caçapa, na cesta, no chão...não sei como nenhum carnavalesco pensou neste tema ainda! Posso ver a avenida repleta de bolas de todas as cores e materiais, bolas de paetês, de plumas, de pelos, bolas de neve!
Fale: bola! E cada um pensará uma coisa diferente. Só com bola de cristal para adivinhar! Aliás, confesso que para mim esta sempre foi a mais fascinante das bolas. Aquela que límpida, transparente e brilhante era capaz de mostrar o futuro e o passado, de desnudar quem se atrevesse a questioná-la sobre o destino. Uma bola de cristal me faria o homem mais poderoso sobre a face da terra! Lamentavalmente o mais próximo que cheguei de uma bola de cristal foi uma pequena coleção de bolinhas de gude (talvez daí a afinidade com a música). E o máximo que minhas mini bolas de cristal informavam é que eu tinha uma péssima mira e que em breve elas todas (as bolitas) me deixariam... A mini previsão se revelou absolutamente verdadeira quando perdi todas as bolihas para meu irmão, que jogava infinitamente melhor que eu.
Pensando bem, através dos tempos, minha relação com alguns tipos de bola sempre foi de alguma forma polêmica. Bolas esportivas sempre me apavoraram. Em especial aquelas pequenas e pesadas do handebol. Pareciam feitas para me atingir. Minhas fugas descontroladas com o propósito de preservar, se não minha vida, meus dentes, nunca foram bem interpretadas pelos meus colegas que disputavam a tapa minha escalação no time contrário.
Mas não sou de dar bola para tudo o que pensam ou falam de mim. Não fico bolado assim tão facilmente. E isso me lembrou um versinho bem bobo, que poderia figurar no livreto da minha amiga, aquela:
"Cabeçorra, cuca, bola,
Muitos nomes ela tem,
Dão tanto nome à cachola,
Mas cabeça, poucos têm!"
Assim, também sem explicação, pensei em outras bolas: bola cheia, bola murcha, ora bolas, não dar bola, bolada nas costas, chicle de bola...o mundo é uma bola! Bolas, bolinhas, bolotas. Sem falar nos esportes de bola, por cima da rede, dentro da rede, na caçapa, na cesta, no chão...não sei como nenhum carnavalesco pensou neste tema ainda! Posso ver a avenida repleta de bolas de todas as cores e materiais, bolas de paetês, de plumas, de pelos, bolas de neve!
Fale: bola! E cada um pensará uma coisa diferente. Só com bola de cristal para adivinhar! Aliás, confesso que para mim esta sempre foi a mais fascinante das bolas. Aquela que límpida, transparente e brilhante era capaz de mostrar o futuro e o passado, de desnudar quem se atrevesse a questioná-la sobre o destino. Uma bola de cristal me faria o homem mais poderoso sobre a face da terra! Lamentavalmente o mais próximo que cheguei de uma bola de cristal foi uma pequena coleção de bolinhas de gude (talvez daí a afinidade com a música). E o máximo que minhas mini bolas de cristal informavam é que eu tinha uma péssima mira e que em breve elas todas (as bolitas) me deixariam... A mini previsão se revelou absolutamente verdadeira quando perdi todas as bolihas para meu irmão, que jogava infinitamente melhor que eu.
Pensando bem, através dos tempos, minha relação com alguns tipos de bola sempre foi de alguma forma polêmica. Bolas esportivas sempre me apavoraram. Em especial aquelas pequenas e pesadas do handebol. Pareciam feitas para me atingir. Minhas fugas descontroladas com o propósito de preservar, se não minha vida, meus dentes, nunca foram bem interpretadas pelos meus colegas que disputavam a tapa minha escalação no time contrário.
Mas não sou de dar bola para tudo o que pensam ou falam de mim. Não fico bolado assim tão facilmente. E isso me lembrou um versinho bem bobo, que poderia figurar no livreto da minha amiga, aquela:
"Cabeçorra, cuca, bola,
Muitos nomes ela tem,
Dão tanto nome à cachola,
Mas cabeça, poucos têm!"
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Uma flor para rimar
E minha amiga Denise relembra um episódio da infância. Conta que lá pela quarta, quinta série, era comum as meninas terem um livrinho que entregavam para os colegas, amigos e professores deixarem mensagens. Cada um tinha direito a uma página inteira para escrever o que lhe aprouvesse: poesias, versinhos, desenhos, enfim, um registro daquele momento para a posteridade. E uma das grandes emoções envolvendo o tal livreto era entregá-lo ao menino por quem se nutria especial afeto. As fêmeas já saem das fraldas se apaixonando por alguém, então todas tinham o tal garoto especial. E imagine a expectativa em torno daquilo que ele iria escrever...
Fernanda temia os riscos, apesar de ser, de longe, a mais bonita da turma. Parecia muito com a outra Fernanda, a Lima. Linda e loura, olhos verdes, era apaixonada pelo colega Giovanni. Mas temia entregar-lhe o caderninho. Já minha amiga, mais desencanada e menos decidida sobre quem era o garoto de quem ela realmente gostava, entregou logo o livrinho para dois: Giancarlo, o gordinho, foi profundo: "Quando este imenso dragão, o tempo, tiver nossos destinos separado, lembra-te que fui teu colega!". Gordo bocó! Betinho, o baixinho, foi mais direto: "Je t'aime em françês, I love you em inglês, mas o melhor é dizer, eu te amo em português!" Uau! Direto ao ponto. Olhando bem, ele nem é assim tão baixo!
Então Fernanda armou-se de coragem e entregou seu livro ao Giovanni que, escreveu em uma página pintada de lápis de cor: "O amor é uma flor roxa, que nasce no coração dos trouxas". Pobre Fer... Não entrou em depressão pois naquela idade ainda nem sabia o que era isso.
As amigas todas foram solidárias e passaram a ignorar o Giovanni, que acabou trocando de escola (não por esse motivo, claro) e nunca mais se soube dele. Betinho colheu os frutos da sua ousadia. Até troca de presentes rolou. Quanto ao Giancarlo, o dragão do tempo foi implacáve: separou seu destino de todos os demais antes que ele completasse 30 anos.
Mas reminiscências à parte, voltemos à tal flor roxa! Será isso então o amor? Ouso concordar. Como uma flor, nasce. Mesmo que não se tenha plantado uma semente sequer. Quando a gente menos espera, lá está ela, imensa! Roxa! Ou profundamente azul, como haverá de ser profundo algum olhar. Escandalosamente vermelha, ardente, viçosa, tal qual lábios desejosos de beijos. Ínfima, desbotada, amarela, delicada e singela... Sempre diferente mas, igualzinha a todas as flores, um dia nasce. Do nada ou de muita coisa. Nasce. E permanece algum tempo ali, para ser colhida ou não, admirada ou ignorada.
Nasce, sem intenção nem culpa, no coração. Não é fruto, o amor, de planejamento, de lógica, de estratégia. Aliás, não é fruto. É flor. Uma flor, procurado uma rima qualquer.
Fernanda temia os riscos, apesar de ser, de longe, a mais bonita da turma. Parecia muito com a outra Fernanda, a Lima. Linda e loura, olhos verdes, era apaixonada pelo colega Giovanni. Mas temia entregar-lhe o caderninho. Já minha amiga, mais desencanada e menos decidida sobre quem era o garoto de quem ela realmente gostava, entregou logo o livrinho para dois: Giancarlo, o gordinho, foi profundo: "Quando este imenso dragão, o tempo, tiver nossos destinos separado, lembra-te que fui teu colega!". Gordo bocó! Betinho, o baixinho, foi mais direto: "Je t'aime em françês, I love you em inglês, mas o melhor é dizer, eu te amo em português!" Uau! Direto ao ponto. Olhando bem, ele nem é assim tão baixo!
Então Fernanda armou-se de coragem e entregou seu livro ao Giovanni que, escreveu em uma página pintada de lápis de cor: "O amor é uma flor roxa, que nasce no coração dos trouxas". Pobre Fer... Não entrou em depressão pois naquela idade ainda nem sabia o que era isso.
As amigas todas foram solidárias e passaram a ignorar o Giovanni, que acabou trocando de escola (não por esse motivo, claro) e nunca mais se soube dele. Betinho colheu os frutos da sua ousadia. Até troca de presentes rolou. Quanto ao Giancarlo, o dragão do tempo foi implacáve: separou seu destino de todos os demais antes que ele completasse 30 anos.
Mas reminiscências à parte, voltemos à tal flor roxa! Será isso então o amor? Ouso concordar. Como uma flor, nasce. Mesmo que não se tenha plantado uma semente sequer. Quando a gente menos espera, lá está ela, imensa! Roxa! Ou profundamente azul, como haverá de ser profundo algum olhar. Escandalosamente vermelha, ardente, viçosa, tal qual lábios desejosos de beijos. Ínfima, desbotada, amarela, delicada e singela... Sempre diferente mas, igualzinha a todas as flores, um dia nasce. Do nada ou de muita coisa. Nasce. E permanece algum tempo ali, para ser colhida ou não, admirada ou ignorada.
Nasce, sem intenção nem culpa, no coração. Não é fruto, o amor, de planejamento, de lógica, de estratégia. Aliás, não é fruto. É flor. Uma flor, procurado uma rima qualquer.
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